Enquanto a União Europeia acaba de validar o acordo de livre-comércio com os países do Mercosul, os gigantes franceses da grande distribuição apresentam uma linha comum e sem margem para dúvidas: as carnes sul-americanas não entrarão nas suas lojas. Uma tomada de posição rara, anunciada a poucos dias da assinatura formal do tratado.
Acordo UE–Mercosul: luz verde em Bruxelas, resistência em França
O confronto era expectável, mas a unanimidade surpreendeu. Nesta sexta-feira, 9 de janeiro, Bruxelas deu oficialmente luz verde ao acordo comercial UE–Mercosul, afastando as reservas manifestadas por França e por vários outros Estados-membros. A assinatura, prevista para 17 de janeiro, abrirá em teoria o mercado europeu às produções agrícolas do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. Na prática, porém, do lado dos supermercados franceses o recado é inequívoco: estes produtos ficam fora.
Thierry Cotillard (Les Mousquetaires): a primeira recusa pública
Thierry Cotillard, presidente do grupo Les Mousquetaires (casa-mãe do Intermarché e do Netto), foi o primeiro a assumir uma posição frontal. Como convidado da France 2 nesta segunda-feira, 12 de janeiro, deixou clara a linha do grupo. “Tomámos posição há um ano: não vamos comprar esses produtos. Não o faremos para o frango e não o faremos para a nossa marca de distribuidor”, repetiu perante as câmaras. Uma declaração que rapidamente foi ecoada por todo o sector.
Frente comum das cadeias francesas
Porque o Intermarché não está sozinho nesta contestação. Carrefour, Système U e Leclerc: os principais grupos da grande distribuição exibem a mesma determinação. Alexandre Bompard, CEO da Carrefour, tinha antecipado o movimento logo a 7 de janeiro na BFMTV. Embora considere que “a adopção do Mercosul terá um impacto bastante limitado” no grupo, isso explica-se precisamente pela sua política de aprovisionamento, que deixa pouco espaço às importações. “A decisão do grupo Carrefour e das suas insígnias é abastecer-se quase exclusivamente através de fileiras de produtos franceses”, precisou, apoiando-se em números: 100% de aves de capoeira francesas, 97% de carne de bovino francesa, 100% de carne de porco feita em França.
O mesmo tom foi adoptado pela Coopérative U. Dominique Schelcher, o seu líder, falou na TF1 no mesmo dia para reafirmar o compromisso da insígnia. Na sua perspectiva, está fora de questão importar para França produtos da América do Sul que não cumpram as condições de produção exigidas no território nacional. Sublinhou ainda que o grupo mantém existências suficientemente elevadas para responder à procura dos consumidores ao longo de todo o ano, sem necessidade de recorrer a importações sul-americanas.
Já Michel-Édouard Leclerc tinha preparado o terreno em meados de Dezembro. Na BFMTV, o responsável pela cadeia homónima foi taxativo: “Não vamos abrir, enquanto distribuidores, às importações de frango e de carne em condições que não respeitem as cláusulas de salvaguarda.” Uma posição de princípio que hoje encontra ressonância em todo o sector.
Tensão no máximo
Esta mobilização conjunta surge num contexto de tensão no máximo no mundo agrícola francês. Os criadores, firmemente contra um acordo que consideram desleal, temem uma concorrência impossível de suportar face às produções sul-americanas, reputadas como mais baratas, mas também menos enquadradas do ponto de vista sanitário e ambiental. Ao alinharem-se com os produtores franceses, as cadeias de distribuição enviam um sinal simultaneamente político e económico.
Indústria agroalimentar: a incógnita dos produtos transformados
Resta uma questão central, levantada pelo próprio Thierry Cotillard: se os distribuidores fecham a porta, o que farão os industriais da agroalimentar? “Não vamos comprar esses produtos no estrangeiro, mas o que vão fazer os industriais?”, questionou. Porque entre pratos preparados, conservas e outros produtos transformados, as cadeias de abastecimento continuam a ser mais opacas. A batalha em torno do Mercosul pode estar apenas a começar.
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